Direito e a Moral em As Crônicas de Nárnia

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Pensa em uma pessoa que ficou feliz, quando o professor de hermenêutica jurídica passou um trabalho sobre o direito e a moral em as Crônicas de Nárnia!! Logo eu que sou fã demais.  ♥

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C.S. Lewis – Clives Staples Lewis (1898 – 1963) foi professor de Literatura Medieval e Renascentista na Universidade de Cambridge e de Oxford. Sua obra As Crônicas de Nárnia, é uma série composta por sete livros, que se tornou uma das maiores referências da literatura infanto-juvenil de todos os tempos.

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A série é composta por: (1) O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, (2) Príncipe Caspian, (3) A Viagem no Peregrino da Alvorada, (4) Cadeira de Prata, (5) O Sobrinho do Mago, (6) O Cavalo e seu Menino, e (7) A Última Batalha. No entanto, esta ordem é feita a partir das publicações. Lewis propôs uma outra ordem depois – cronológica da história, sugerida por um de seus leitores mirins – com O Sobrinho do Mago iniciando a obra, seguido de O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa; O Cavalo e seu Menino; O Príncipe Caspian; A Viagem do Peregrino da Alvorada; Cadeira de Prata e A Última batalha.

Para quem ainda não conhece a história segue o resumo, para que consiga entender a análise do Direito e a Moral. E quem já conhece pode pular para a análise, mais abaixo.

Em o livro “O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa” Lewis conta como quatro crianças (Pedro, Susana, Edmundo e Lúcia), na época da Segunda Guerra Mundial, vão para a casa de um misterioso professor. Lá, brincando de esconde-esconde, a caçula Lúcia entra em um guarda-roupa e descobre “Nárnia”, uma terra de outra dimensão, habitada por seres fantásticos.

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Em Nárnia, Lúcia topa com um fauno, o Sr. Tumnus, à luz de um poste, que a convida para um chá em sua toca. O fauno conta várias histórias acerca de Nárnia para Lúcia, incluindo o feitiço da Feiticeira Branca, pelo qual é sempre inverno e nunca Natal. Embora todos os habitantes tivessem recebido a missão de denunciar todo e qualquer “Filho de Adão” ou “Filha de Eva” que por lá aparecesse, caso contrário seriam transformados em estátua de pedra, o fauno não consegue fazê-lo e traz Lúcia de volta ao mundo do outro lado do guarda-roupa.

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Lúcia, então, volta para seu mundo e percebe que seus irmãos estão no mesmo ponto da brincadeira. Ou seja, o tempo não havia passado na Terra. Para decepção de Lúcia, porém, nenhum dos irmãos acredita na sua história. Edmundo zomba de Lúcia, mas, no outro dia, seguindo a irmã, também acaba descobrindo Nárnia. Edmundo topa com a Feiticeira Branca, a Rainha de Nárnia, que lhe oferece um manjar turco com uma condição: Edmundo teria que trazer seus irmãos para Nárnia.

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No dia seguinte, todas as crianças acabam em Nárnia, após entrarem no guarda-roupa. Em Nárnia, os quatro são recebidos por um castor falante. Esse castor acolhe as crianças em sua casa e explica a antiga profecia de Nárnia: quando os quatro filhos de Eva ali chegassem, seria o sinal de que o leão Aslam estava chegando para resgatar o mundo de Nárnia de seu feitiço.

Logo depois, todos se dão conta do sumiço de Edmundo, e o castor deduz que ele foi ao encontro da feiticeira, determinando que todos partissem para a Mesa de Pedra. Edmundo chega ao castelo da Feiticeira e descobre vários seres de Nárnia petrificados pelo feitiço da Rainha. Ao descobrir que Edmundo não trouxe os irmãos nem as informações necessárias para evitar a chegada de Aslam, a feiticeira resolve usá-lo como refém e partir imediatamente para a Mesa de Pedra.

Nesse meio-tempo, as crianças e os castores encontram no meio do caminho seres mitológicos e o Papai Noel, que anuncia que Aslam está a caminho. A neve de Nárnia começa a derreter. As crianças, ao chegarem à Mesa de Pedra, encontram Aslam. O Leão convoca todos os narnianos para uma batalha contra as hostes da Feiticeira. Os narnianos conseguem libertar Edmundo.

A Feiticeira envia um recado à Aslam lembrando-o que, de acordo com a lei inscrita na Mesa de Pedra, ela tem direito ao sangue de todo traidor. Aslam negocia com a Feiticeira as condições para a salvação de Edmundo.

Aslam, então, morre no lugar de Edmundo e cumpre a lei de Nárnia. As meninas Lúcia e Susana, no entanto, testemunham a ressurreição de Aslam e a quebra da Mesa de Pedra, pois uma lei mais antiga – que foi esquecida pela Rainha – estabeleceu que todo aquele que morresse no lugar de um inocente iria ressuscitar.

Aslam vai ao castelo da Feiticeira, onde Pedro lidera a batalha contra as hostes da Feiticeira. Com o reforço de Aslam, os narnianos derrotam as forças do mal, e as estátuas voltam à vida. Edmundo é perdoado por todos. Uma grande festa encerra a história com a coroação dos quatro meninos como reis e rainhas de Nárnia. Passados vários anos em Nárnia, as crianças tornam-se adultas e por acaso encontram novamente o guarda-roupa pelo qual tinham ingressado em Nárnia. Elas retornam ao seu mundo de origem e descobrem que o tempo não havia passado. Eram crianças novamente.

Análise:

Em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa, Lewis critica o secularismo moderno. Quando as crianças visitam pela primeira vez a casa do professor, todos, exceto Lúcia, têm um preconceito contra qualquer possibilidade que transcenda a experiência do dia-a-dia. Quando Lúcia afirma ter encontrado outro mundo através do fundo de um guarda roupa, todos logo imaginam que esteja mentindo ou louca. Acham que só existem essas duas possibilidades, embora todas as evidências contradigam ambas (Lúcia é muito honesta e sempre coerente). Eles não levam à sério uma terceira possibilidade, a de que Lúcia esteja dizendo a verdade, pois, diante de sua filosofia, uma coisa assim não poderia existir.

C.S. Lewis apresenta uma ordem jurídica simples em As Crônicas de Nárnia. Essa ordem é regida pela Magia Profunda, a “lei de Nárnia”. Essa lei tem importância central na narrativa, uma vez que conduz o principal acontecimento no livro O Leão, a feiticeira e o guarda-roupa: o sacrifício de Aslam.

Edmundo trai seus irmãos e acaba nas garras da Feiticeira, que o aprisiona. Edmundo, contudo, acaba sendo libertado. A Feiticeira, então, lembra o leão Aslam da lei antiga que lhe dava o direito sobre o sangue de todos os que cometessem uma traição em Nárnia. E, em Nárnia, a traição deveria ser paga com a própria vida:

– Há um traidor aqui, Aslam! – declarou a feiticeira.
– Não foi bem a você que ele ofendeu – disse Aslam.
– Já se esqueceu da Magia Profunda? – perguntou a feiticeira.
– Digamos que sim – replicou Aslam, solenemente. – Fale-nos da Magia Profunda.
– Falar-lhe da Magia Profunda?! Eu?! – disse a feiticeira, numa voz ainda mais aguda. – Falar-lhe do que está escrito nessa Mesa de Pedra aí ao lado? Falar-lhe do que está
escrito em letras do tamanho de uma espada, cravadas nas pedras de fogo da Montanha Secreta? Falar-lhe do que está gravado no cetro do Imperador de Além-Mar? Se alguém conhece tão bem quanto eu o poder mágico a que o Imperador sujeitou Nárnia desde o princípio dos tempos, esse alguém é você. Sabe que todo traidor, pela lei, é presa minha, e que tenho direito de matá-lo! […]. Essa criatura humana me pertence. A vida dela me pertence. Tenho direito ao seu sangue (LEWIS, 2007, p.165).

Aslam, então, resolve sacrificar-se no lugar de Edmundo. Ele negocia com a Feiticeira
para que pudesse morrer no lugar de Edmundo. Após uma conversa particular com a
Feiticeira, Aslam acalma os demais habitantes de Nárnia:

– Venham todos. Tudo resolvido. Ela renunciou ao direito que tinha ao sangue de Edmundo (LEWIS, 2007, p.166).

Fica claro em Nárnia que o direito deve ser válido, respeitado e observado. Ou seja, quando o direito não é obedecido, a sociedade se desintegra. Caso a lei da Magia Profunda, inscrita na Mesa de Pedra, não fosse cumprida, e Edmundo permanecesse vivo, toda a terra de Nárnia seria destruída com “fogo e água”. A lei deveria ser cumprida, caso contrário tudo entraria em colapso, o mundo caminharia para o caos.

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Contudo, o leão Aslam ressuscita. A ressurreição ocorreu devido a uma lei chamada Magia Ainda Mais Profunda, que era mais antiga que a lei da Magia Profunda. A Magia Ainda Mais Profunda estabeleceu que um inocente que morresse no lugar de um condenado, iria ressuscitar. Aslam explica a sua ressurreição para as meninas Lúcia e Susana:

– A feiticeira pode conhecer a Magia Profunda, mas não sabe que há outra magia ainda mais profunda. O que ela sabe não vai além da aurora do tempo. Mas, se tivesse sido capaz de ver um pouco mais longe, de penetrar na escuridão e no silêncio que reinam antes da aurora do tempo, teria aprendido outro sortilégio. Saberia que, se uma vítima voluntária, inocente de traição, fosse executada no lugar de um traidor, a mesa estalaria e a própria morte começaria a andar para trás (LEWIS, 2007, p.174-175).

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A moral tem como idéia e valor central o conceito de bem, o que é considerado correto, como ter respeito para com o próximo, por exemplo. O direito se alimenta da moral, porque através dela que se pode chegar a uma harmônica convivência em sociedade. Se cada um fizer o que tiver vontade, não tem equilíbrio e nem controle algum, e a sociedade vira uma bagunça insustentável.

Ainda em Londres, antes de entrarem em Nárnia, as crianças estão longe de ser modelos morais. Pedro é um garoto indeciso que demora defender sua irmã Lúcia, e com a falta dos pais, tem dificuldades de assumir a liderança dos irmãos. Edmundo trai seus irmãos várias vezes, costuma ser muito desonesto e ambicioso, além da escravidão do vício mostrada na cena do manjar turco. Susana é mandona, e, por isso, um pouco grossa. Lúcia por ser a mais nova era muito inocente, não apresentava ainda desvios morais, mais no terceiro filme “A Viagem Do Peregrino Da Alvorada”, em sua adolescência têm inveja da beleza de Susana.

Nárnia prova ser a cura para todas essas falhas morais. Quando os quatro irmãos foram coroados reis de Nárnia, receberam novos nomes, que mostram a cura moral que receberam. Edmundo que antes era desonesto, passa a ser “O Justo”. Pedro que antes era indeciso passa a ser “O Magnífico”, ou seja, um grande Rei, que sabe tomar decisões. Susana que antes era mandona e um pouco grossa, passa a ser “A gentil”. E Lúcia foi aprimorada na qualidade que já possuía como “A destemida”, e no terceiro filme é corrigida por Aslam com relação à inveja da beleza de Susana.

A cura em Nárnia ocorre através do método de crescimento moral conforme ensinado pela filosofia clássica. Segundo Aristóteles, Aquino e outros defensores da imagem clássica, o crescimento moral requer três coisas: primeiro, precisamos aprender como o mundo moral funciona; precisamos de instrução. As crianças, antes de conhecerem Nárnia, nem sequer reconheciam suas próprias falhas. Edmundo, por exemplo, somente em Nárnia viu que a maneira como agia era errada e vergonhosa. Depois, precisamos de modelos de virtude que nos mostrem como ser moralmente bons; precisamos de exemplos dignos de imitação. E, por fim, precisamos fazer o que é certo repetidas vezes, mesmo que seja difícil; precisamos de habituação.

De acordo com Davis, em “Nárnia, as crianças recebem os três ingredientes” (IRWIN, 2006, p.114). Lewis aplica em sua obra os conceitos propostos pela filosofia clássica: As criaturas de Nárnia instruem constantemente as crianças, enquanto Aslam é o exemplo a ser imitado. As crianças aprendem se comportar corretamente, imitam Aslam e crescem moralmente. Após isso a vida em Nárnia se torna tão harmoniosa e agradável que os quatro irmãos crescem, chegando a fase adulta, e se esquecem completamente de Londres e de como chegaram até ali, de forma que só encontram o guarda-roupa por acaso.

Para quem conhece o Cristianismo é bem clara a semelhança de As Crônicas de Nárnia com a História de Jesus Cristo. Em As Crônicas de Nárnia, Lewis constrói uma espécie de parábola como forma de dizer o que pensa, sem correr grandes riscos, e ainda atingindo o público de forma bem ampla. Aslam é Jesus, que morreu por nós, os pecadores, e ressuscitou.  Em uma passagem do filme, Aslam diz para a Lúcia: “No seu mundo tenho outro nome, você precisa aprender a me reconhecer lá”.  E podemos ver claramente o impacto maravilhoso que ocorreu na vida das quatro crianças ao conhecerem o Aslam (Jesus). E assim como em Nárnia eles deveriam se tornar Reis por direito, Deus tem um plano em nossas vidas de nos moldar a imagem dEle e nos fazer reis e rainhas, tendo uma vida tão significativa e inimaginável a ponto de nos fazer esquecer as coisas passadas.

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Com amor,

Morgana.

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16 comentários em “Direito e a Moral em As Crônicas de Nárnia

  1. Olá Morgana!

    Temos muita coisa em comum… Você estuda Direito. Eu sou advogada (Uniceub -Brasília).
    Estou formada a muito tempo, mais precisamente, 19 anos.
    Direito é um curso maravilhoso. Abre a nossa mente e enriquece os nossos valores. É um aprendizado que vale a pena, mesmo para aqueles que não o exercem como eu.
    Concordo com a Darlene R. Faria, o meu curso teria sido bem mais interessante se os livros sugeridos fossem parecidos com os seus. Mas, assim como ela, o dia a dia da profissão me mostrou que a minha praia é outra.
    O que gosto mesmo de fazer é escrever!
    Compartilhar as minhas experiências com os meus leitores e todos que fazem parte da minha vida.
    Vi que você nasceu em Brasília cidade que moro desde pequena. Amo essa cidade!
    Muito bom saber que você, mesmo tão jovem, busca viver tendo Cristo sempre presente.
    Abraço forte

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oii Bibiana! Que legal, temos mesmo muita coisa em comum. Amo Brasília também, amo ler e escrever. Estou gostando muito do curso de Direito. Não sei exatamente o que o futuro me reserva. O que eu mais quero é ser uma escritora de romance cristão, e poder levar o evangelho ao mundo todo através dos meus livros, mas pretendo seguir a carreira jurídica também.
      Abraço forte! ❤

      Curtido por 1 pessoa

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